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quinta-feira, 20 de maio de 2010

Perto do mar...

Estava eu sentado, perto do mar, a ouvir com pouca atenção um amigo meu que falava arrebatadamente de um assunto qualquer, que me era apenas fastidioso. Sem ter consciência disso, pus-me a olhar para uma pequena quantidade de areia que entretanto apanhara com a mão; de súbito vi a beleza requintada de cada um daqueles pequenos grãos; apercebia-me de que cada pequena partícula, em vez de ser desinteressante, era feito de acordo com um padrão geométrico perfeito, com ângulos bem definidos, cada um deles dardejando uma luz intensa; cada um daqueles pequenos cristais tinha o brilho de um arco-íris... Os raios atravessavam-se uns aos outros, constituindo pequenos padrões, duma beleza tal que me deixava sem respiração... Foi então que, subitamente, a minha consciência como que se iluminou por dentro e percebi, duma forma viva, que todo o universo é feito de partículas de material, partículas que por mais desinteressantes ou desprovidas de vida que possam parecer, nunca deixam de estar carregadas daquela beleza intensa e vital. Durante um segundo ou dois, o mundo pareceu-me uma chama de glória. E uma vez extinta essa chama, ficou-me qualquer coisa que junca mais esqueci que me faz pensar constantemente na beleza que encerra cada um dos mais ínfimos fragmentos de matéria à nossa volta.

(Aldous Huxley)

sábado, 12 de setembro de 2009

It was pleasantly surprised...

(...) Os seus dedos esfregaram numa carícia elétrica o dorso da mão dele e se lhe fecharam em torno do pulso. - Onde está o pulso? – tornou a perguntar ao cabo de um momento. – Não o sinto em parte alguma. – Lucy tateava a pele macia à procura das pulsações da artéria. Walter sentia a carícia da ponta daqueles dedos, leves e palpitantes, um pouco frios, contra o seu pulso. – Acho que nem tens pulso... Creio que o teu sangue está estagnado. – O tom da voz dela era desdenhoso. “Que tolo!”, pensava Lucy. “Que desprezível bobalhão!” – Completamente estagnado – repetiu. E subitamente, com uma malícia repentina, cravou-lhe na carne as unhas pontudas e afiadas a lima. Walter soltou um grito de surpresa e de dor. – Tu mereces isto, – disse a rapariga. E riu-lhe na cara. Walter segurou-a pelos ombros e começou a beijá-la selvagemente. A cólera lhe tinha exacerbado o desejo: seus beijos eram uma vingança. Lucy fechou os olhos e se abandonou molemente, sem resistência. Sentiu brotar-lhe na epiderme toda, em pequenas antecipações de gozo, um formigamento bom que era como o adejar de mariposas tomadas de pânico. E de súbito dedos pontudos pareceram dedilhar, em pizicato, as cordas de seus nervos. Walter sentiu todo o corpo dela estremecer involuntariamente em seus braços, estremecer como se tivesse sido subitamente ferido. Beijando-a, ele ficou a pensar se Lucy esperava ou não que ele reagisse daquela maneira à sua provocação. Com ambas as mãos tomou-lhe do pescoço frágil. Seus polegares tocavam-lhe a traquéia. Walter fez uma pressão suave.
– Um dia – disse por entre os dentes cerrados – eu te hei de estrangular.
Lucy limitou-se a rir. Walter inclinou-se e beijou-lhe a boca que ria. O contato dos lábios do rapaz contra os seus produziu-lhe uma sensação fina, aguda, quase uma dor que trespassasse insuportavelmente. As mariposas agitadas esvoaçavam por sobre o seu corpo todo. Lucy não esperava de Walter aqueles ardores tão brutais e selvagens. Estava agradavelmente surpreendida.
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(Contraponto, Aldous Huxley)

sexta-feira, 10 de julho de 2009

 “Tal é a finalidade de todo o condicionamento: fazer as pessoas amarem o destino social ao qual não podem escapar.”
*“Numa época de tecnologia avançada, o maior perigo para as idéias, para a cultura e para o espírito pode mais facilmente vir de um inimigo sorridente que de um adversário que inspira o terror e o ódio.”
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“Em nossa sociedade, os homens são paranoicamente ambiciosos, porque a ambição paranóica é admirada como uma virtude e os que alcançam sucesso são adorados como se fossem deuses.”
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(Aldous Huxley)

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A constância é contrária à natureza,
contrária à vida.
As únicas pessoas completamente constantes
são os mortos.*
(Aldous Huxley)
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