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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Dois em Um

Ele me olhou. Então vi minha beleza refletida nos olhos dele. Havia na festa tanta gente, tanto espelho, tanto lustre! Mas só nós dois vivos, tudo o mais era tão falso, tão vazio, sem sentido, como papelão pintado... Só nós dois vivendo. Nos espelho, nos lustres, em toda parte eu via o reflexo dos meus cabelos brilhando, como eles estavam brilhantes... Não nos separamos mais. Amanhecia quando ele apertou minha mão e antes mesmo de ouvir sua voz já sabia o que ele ia dizer: Laura, eu te amo. Às vezes penso que ele nem me disse nada, Laura eu te amo, eu te amo, eu te amo...

(Lygia Fagundes Telles)

domingo, 25 de julho de 2010

Nascemos todos os dias, quando nasce o Sol.
Começa hoje mesmo a vida que te resta.


(Lygia Fagundes Telles)

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Lembranças que me perseguem...


Leio a advertência no maço, Fumar é Prejudicial à Saúde. Mais prejudicial do que o cigarro é a memória...


(Lygia Fagundes Telles)

segunda-feira, 8 de março de 2010

Não cortaremos os pulsos...

Na vocação para a vida está incluído o amor, inútil disfarçar, amamos a vida. E lutamos por ela dentro e fora de nós mesmos. 
Principalmente fora, que é preciso um peito de ferro para enfrentar essa luta na qual entra não só o fervor, mas uma certa dose de cólera, fervor e cólera.
Não cortaremos os pulsos, ao contrário, costuraremos com linha dupla todas as feridas abertas.


(Lygia Fagundes Telles)

sábado, 6 de março de 2010

(...)

Estranho, sim
As pessoas ficam desconfiadas, ambíguas diante dos apaixonados.
Aproximam-se deles, dizem coisas amáveis, mas guardam certa distância, não invadem o casulo imantado que envolve os amantes e que pode explodir como um terreno minado, muita cautela ao pisar nesse terreno.
Com sua disciplina indisciplinada, os amantes são seres diferentes e o ser diferente é excluído porque vira desafio, ameaça.
Se o amor na sua doação absoluta os faz mais frágeis, ao mesmo tempo os protege como uma armadura.
Os apaixonados voltaram ao Jardim do Paraíso, provaram da Árvore do Conhecimento e agora sabem...
(Lygia Fagundes Telles)

sábado, 10 de outubro de 2009

Livres... Quem me dera ser gato!


“…Ele fixaria em Deus aquele olhar de esmeralda diluída, uma leve poeira de ouro no fundo. E não obedeceria porque gato não obedece. Às vezes, quando a ordem coincide com sua vontade, ele atende mas sem a instintiva humildade do cachorro, o gato não é humilde, traz viva a memória da sua liberdade sem coleira. Despreza o poder porque despreza a servidão. Nem servo de Deus. Nem servo do Diabo.”

(Lygia Fagundes Telles, em “A Disciplina do Amor”)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

AS HORAS NUAS

“Gregório podia me ajudar in memoriam pelo tempo que me amou, sabia latim. Até grego. Mecânica celeste. Acho que andava triste comigo mas quem aprendeu tanto devia perdoar quem sabe tão pouco.”

(Lygia Fagundes Telles)

quinta-feira, 11 de junho de 2009

 Solução melhor é não enlouquecer mais do que já enlouquecemos, não tanto por virtude, mas por cálculo. Controlar essa loucura razoável: se formos razoavelmente loucos não precisaremos desses sanatórios porque é sabido que os saudáveis não entendem muito de loucura. O jeito é se virar em casa mesmo, sem testemunhas estranhas. Sem despesas.
*
(Lygia Fagundes Telles)

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Descobri outro dia que a gente só se mata por causa dos outros, para fazer efeito, dar reação, compreende?
Se não houvesse ninguém em volta para sentir piedade, remorso e etc. e tal, a gente não se matava nunca.
Então descobri um jeito ótimo, me matar e continuar vivendo.
Largo meus sapatos e minha roupa na beira do rio, mando cartas e desapareço.

*
(Lygia Fagundes Telles)