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quarta-feira, 15 de julho de 2015

É urgente o amor


É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Eram de longe



Eram de longe.
Do mar traziam
o que é do mar: doçura
e ardor nos olhos fatigados.








(Eugénio de Andrade)

domingo, 4 de julho de 2010

Sobre a arte de amar...




O que pode uma boca esperar senão outra boca?

(E. de Andrade)

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Pensamentos que nos salvam

PRIMEIRAMENTE
Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus.
E é assim que a noite chega, e dentro dela te procuro, encostado ao teu nome, pelas ruas álgidas onde tu não passas, a solidão aberta nos dedos como um cravo.
Meu amor, amor de uma breve madrugada de bandeiras, arranco a tua boca da minha e desfolho-a lentamente, até que outra boca – e sempre a tua boca – comece de novo a nascer na minha boca.
Que posso eu fazer senão escutar o coração inseguro dos pássaros, encostar a face ao rosto lunar dos bêbados e perguntar o que aconteceu.
(Eugénio de Andrade)

sábado, 5 de junho de 2010

Para ti

Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.

(Eugénio de Andrade)

terça-feira, 1 de junho de 2010

Eram de longe

Eram de longe.
Do mar traziam
o que é do mar: doçura
e ardor nos olhos fatigados.


(Eugénio de Andrade)

terça-feira, 18 de maio de 2010

domingo, 16 de maio de 2010

Ainda sabemos cantar

Ainda sabemos cantar,
só a nossa voz é que mudou:
somos agora mais lentos,
mais amargos,
e um novo gesto é igual ao que passou.
Um verso já não é a maravilha,
um corpo já não é a plenitude.

(Eugénio de Andrade)

domingo, 3 de janeiro de 2010

O Amor

Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.
A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.
A inundar-te de facas,
de saliva esperma lume.
Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável
A marcar sobre os teus flancos
o itinerário da espuma
Assim é o amor: mortal e navegável.
*
(Eugénio de Andrade - “Obscuro D”)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

(...)

Viver no limiar dos pássaros
Voar todas as luas
Sem asas rasar os espaços
nadar entre as escolhas
cobrir a nudez do corpo
em cada voo com o lume dos sargaços...
Esta é a asa que nos risca o voo subliminar dos gestos.

(Eugénio de Andrade)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Os Amigos

Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.
(Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia")

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O Amor...

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
*
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
*
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
*
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
*
(Eugênio de Andrade)

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

 Creio que foi o sorriso, o sorriso foi quem abriu a porta. Era um sorriso com muita luz lá dentro, apetecia entrar nele, tirar a roupa, ficar nu dentro daquele sorriso. Correr, navegar, morrer naquele sorriso.
*
(O outro nome da terra – Eugênio de Andrade)