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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Memória

Nós tendemos a acreditar que aquilo de que nos recordamos realmente aconteceu e não pomos em causa e somos, em grande medida, aquilo de que nos lembramos. E a verdade é que muitas coisas de que nos lembramos na realidade não aconteceram ou não aconteceram exatamente assim. Portanto, até certo ponto, nós próprios somos uma ficção, uma mentira.

(José Eduardo Agualusa)

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O Brasil é um país racista?

Encontramos uma grande maioria de respostas apontando para o sim. Em nossa busca deparamo-nos com o depoimento do escritor angolano José Eduardo Agualusa para uma revista da editora Abril.
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"O Brasil ainda é um país moldado na escrava - tura, igual à África. O Brasil tem uma África dentro de si e às vezes não lhe dá atenção. Aqui, como em Angola, por exemplo, existe a figura da babá negra que passa de geração em geração; há o moleque criado como se fosse filho, mas, na verdade, ele trabalha na casa, sem remuneração. Negro e pobre são condições que se confundem no Brasil. Não se criou aqui, como em Angola, uma elite negra. A gente repara nessa desigualdade no dia-a-dia, na relação entre as pessoas, e até mesmo na cultura. Atualmente não dá para citar um grande escritor negro ou mestiço brasileiro. Isso é incrível porque no século XIX havia grandes escritores afro-descendentes, como Machado de Assis e Cruz e Sousa. Pior ainda, não há um único grande autor indígena - algo que acontece em toda a América. Enquanto não enfrentar o problema e não der maior participação aos negros, o Brasil não terá se descolonizado. O Brasil é colônia.
Aqui existe o racismo, mas não a paranóia racial, como acontece nos Estados Unidos ou mesmo em Angola. Nesses dois países, sempre pensamos no assunto o tempo todo. Por exemplo, se em Angola organizamos uma antologia de poetas contemporâneos, obrigatoriamente pensamos em quantos negros vão participar. Aqui, não se presta tanta atenção à cor e nem acho que haveria autores negros suficientes para figurar em uma antologia. Gilberto Gil virou ministro da Cultura não porque é negro, mas por ser uma figura importante. Em Angola ou nos Estados Unidos, uma escritora como Clarice Lispector, infelizmente, não seria considerada nacional, mas ucraniana."

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

“O pior pecado é não amar.”

Foto do autor: José Eduardo Agualusa
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Ocorre-me às vezes um infeliz verso cujo autor não recordo. Provavelmente sonhei-o. Será talvez o refrão de um fado, de um tango, de algum velho samba que escutei em criança: “o pior pecado é não amar.”
Houve muitas mulheres na minha vida, mas receio não ter amado nenhuma. Não com paixão. Não, talvez, como o exige a natureza. Penso nisto com horror. A minha condição atual será - atormenta-me a suspeita - um castigo irônico. Ou é isso, ou foi simplesmente distração.
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(José Eduardo Agualusa, “O vendedor de passados”)