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quinta-feira, 21 de abril de 2011

Poesia é a urgência, quando não temos nada a perder.

Eu sou apaixonado por textos que interrogam,
não que dão certezas ou fórmulas.
Textos que permitem a gente se duvidar
um pouco mais do que o necessário,
enlouquecer um pouco mais do que a dosagem normal,
vibrar um pouco mais do que o permitido por lei.
Depois que somos educados,
passamos toda a vida aprendendo a nos reprimir.
A poesia é essa libertação. Falar olhando nos olhos.
Encarar com sinceridade o que podemos ser.
Por que esperar o fim da relação para dizer a verdade?
Por que esperar uma doença para ser sincero?
Por que esperar alguém partir para descobrir o desejo?
Poesia é a urgência, quando não temos nada a perder.
É quando apostamos em um único lance o que acreditamos…

(Fabrício Carpinejar)

sábado, 11 de setembro de 2010

Não tem explicação


“Nunca conseguimos explicar o motivo de estar amando.
Sempre explicamos fácil o motivo da separação.
Amar deve ser uma sábia ignorância.”
 

(Fabrício Carpinejar)

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Falando de amor pra variar...

O amor nunca morre de morte natural. Añais Nin estava certa.
Morre porque o matamos ou o deixamos morrer.
Morre envenenado pela angústia. Morre enforcado pelo abraço. Morre esfaqueado pelas costas. Morre eletrocutado pela sinceridade. Morre atropelado pela grosseria. Morre sufocado pela desavença.
Mortes patéticas, cruéis, sem obituário e missa de sétimo dia.
Mortes sem sangramento. Lavadas. Com os ossos e as lembranças deslocados.
O amor não morre de velhice, em paz com a cama e com a fortuna dos dedos.
Morre com um beijo dado sem ênfase. Um dia morno. Uma indiferença. Uma conversa surda. Morre porque queremos que morra. Decidimos que ele está morto. Facilitamos seu estremecimento.
O amor não poderia morrer, ele não tem fim. Nós que criamos a despedida por não suportar sua longevidade. Por invejar que ele seja maior do que a nossa vida.
O fim do amor não será suicídio. O amor é sempre homicídio. A boca estará estranhamente carregada.
Repassei os olhos pelos meus namoros e casamentos. Permiti que o amor morresse. Eu o vi indo para o mar de noite e não socorri. Eu vi que ele poderia escorregar dos andares da memória e não apressei o corrimão. Não avisei o amor no primeiro sinal de fraqueza. No primeiro acidente. Aceitei que desmoronasse, não levantei as ruínas sobre o passado. Fui orgulhoso e não me arrependi. Meu orgulho não salvou ninguém. O orgulho não salva, o orgulho coleciona mortos. No mínimo, merecia ser incriminado por omissão. Mas talvez eu tenha matado meus amores. Seja um serial killer. Perigoso, silencioso, como todos os amantes, com aparência inofensiva de balconista. Fiz da dor uma alegria quando não restava alegria.
Mato; não confesso e repito os rituais. Escondo o corpo dela em meu próprio corpo. Durmo suando frio e disfarço que foi um pesadelo. Desfaço as pistas e suspeitas assim que termino o relacionamento. Queimo o que fui. E recomeço, com a certeza de que não houve testemunhas.
Mato porque não tolero o contraponto. A divergência. Mato porque ela conheceu meu lado escuro e estou envergonhado. Mato e mudo de personalidade, ao invés de conviver com minhas personalidades inacabadas e falhas.
Mato porque aguardava o elogio e recebia de volta a verdade.
O amor é perigoso para quem não resolveu seus problemas. O amor delata, o amor incomoda, o amor ofende, fala as coisas mais extraordinárias sem recuar. O amor é a boca suja. O amor repetirá na cozinha o que foi contado em segredo no quarto. O amor vai abrir o assoalho, o porão proibido, fazer faxina em sua casa. Colocar fora o que precisava, reintegrar ao armário o que temia rever.
O amor é sempre assassinado. Para confiarmos a nossa vida para outra pessoa, devemos saber o que fizemos antes com ela.”

(Carpinejar)

domingo, 1 de agosto de 2010

Pense nisto!

“O que foi vivido mudará.
 O que não foi vivido perturbará.
Todo adeus será covarde.”
(...)
“Ame para conhecer, não conheça para amar.
O amor é violento mesmo quando temos controle sobre ele.
O amor é um excesso que retira a possibilidade de viver pequeno.”


(Fabrício Carpinejar)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A poesia é hoje uma presença na prosa de vários autores, inclusive na sua. Essa é uma preocupação relevante para você?


É a minha maior preocupação. Vivemos a despersonalização. Existe uma mania de não incomodar e de agradar a todos. Há uma preferência por ser adivinhado, ao invés de expor os próprios gostos. Vejo gente engolindo seus pensamentos. Gripado das convenções sociais. Com vergonha de emitir opinião, de contar o que deseja, com receio de não ser aceito.

Poesia é franqueza com nossas fraquezas, assumir um ponto de vista. Errar sem fingir que tentava acertar, tropeçar sem fingir que estava se agachando. Aceitar as gafes. Ter a coragem do erro. O poeta é a sinceridade da imaginação.
*
Tão bonito o diálogo que a poesia alcança: ler é ouvir o pensamento, escrever é respondê-lo.
*
Não troco minha ingenuidade pela certeza. A ingenuidade é curiosa, a certeza é arrogante.
*
(Fabrício Carpinejar: Publicado no jornal Zero Hora, caderno Cultura, ps. 4 e 5 Porto Alegre (RS), 07 de novembro de 2009 N° 16148)

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Insista!

Sempre insista. Fale mais do que seja possível pensar. Insista. Temos que ter a capacidade de superar as resistências. Toda primeira conversa enfrentará uma série de inconvenientes. Mas insista. Não recue com a gafe, com o estardalhaço, com a vergonha. Siga adiante. Comece a rir sozinha. Rir é receber a pergunta: o que você está rindo? Rir é ser perguntado. Não há motivo para rir, rir é se abraçar. Minha risada é meu gemido público. Acordar me deixa excitado.
*
Talvez aquela amiga não queira namorá-lo para não estragar a amizade. Portanto, diga: quero hoje estragar nossa amizade. Estragar de jeito. Arruinar nossa amizade. Corromper nossa amizade.
*
Estrague fundo, o amor pode estar recolhido nela. Mas não aceite tão rápido o que ela não acredita. É disfarce, vivemos disfarçados de normalzinho, de ponderado, de retraído, porque a verdade quando surge faz atitudes impensadas, como comer algodão-doce nesta terça-feira diante de uma escola de normalistas. Que saudades de acenar para uma freira dirigindo um fusca. Deus é uma freira dirigindo um fusca. Tenho saudades de me exibir cortando laranjas. As tiras simétricas, os cabelos loiros da laranjeira. Tenho saudade de passear com a minha laranjeira.
*
Não se explique, insista. Eu não vou ficar esperando alguém me salvar. Eu mesmo me salvo. Eu mesmo me arrumo para a loucura.
*
Insista. O apaixonado cria sua boca. Cria sua boca para cada boca. Caso tenha prometido ir atrás dele, vá. Telefone, ainda que atrasada dois anos da promessa. Volte atrás, não queria pensar com os olhos, a boca são olhos mais atentos.
*
Não se intimide ao encontrar seu homem no momento errado. É sempre o momento errado. Seja o momento errado da vida dele. Mas seja parte da vida dele.
*
Seja o erro mais contundente da vida dele. Seja a vida do seu erro, para ele errar mais seguido.
*
Talvez aquele amigo não converse para manter a aparência de misterioso. Talvez ele nem saiba conversar, seja incompetente. Insista. Uma hora ele vai tomar um porre do seu silêncio, sentar no meio-fio e falar aramaico. Todo homem guardado uma hora fala aramaico. Insista, esteja perto para o sermão dos pássaros no viaduto.
*
A vida mete medo quando ela não é formalidade, não temos como nos defender do que parte dos dentes. Tenha um medo assombroso da vida, que é mais justo, deixe a morte com ciúme e inveja, deixe a morte sem dançar.
*
Não fique articulando frases inteligentes, comoventes, certas. Insista. Sei o valor de uma fantasia, mas insista. Tropeçar ainda é andar, pedir desculpa ainda é avançar, concentre-se na dispersão.
*
Ninguém quer falar com ninguém. Mas insista. Na sala do dentista, no trem, no ônibus, no elevador. Insista. O que mais precisamos é estranheza para reencontrar a intimidade. Não há nada íntimo que não tenha sido estranho um dia. Seja estranho com o ascensorista, com o porteiro do prédio, com a colega. Declare-se apaixonado antecipadamente. Depois encontre um jeito de pagar. Ame por empréstimo. Ame devendo. Ame falindo.
*
Mas não crie arrependimentos por aquilo que não foi feito. Sejamos mais reais em nossas dores.
*
Tudo o que não aconteceu é perfeito. Dê chance para a imperfeição. Insista.
*
Estou cansado de me defender - sou só ataque. Insisto.
*
(Fabrício Carpinejar)

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Amar com coragem, só isso...

Uma mulher não perdoa uma única coisa no homem: que ele não ame com coragem. Pode ter os maiores defeitos, atrasar-se para os compromissos, jogar futebol no sábado com os amigos, soltar gargalhada de hiena, pentear-se com franjinha, ter pêlos nas costas e no pescoço, usar palito de dente, trocar os talheres de um momento para outro. Qualquer coisa é admitida, menos que não ame com coragem. Amar com coragem não é viver com coragem. É bem mais do que estar aí. Amar com coragem não é questão de estilo, de gosto, de opinião. Não se adquire com a família, surge de uma decisão solitária. Amar com coragem é caráter. Vem de uma obstinação que supera a lealdade. Vem de uma incompetência de ser diferente. Amar para valer, para dar torcicolo. Não encontrar uma desculpa ou um pretexto para se adaptar, para fugir, para não nadar até o começo do corpo. Não usar atenuantes como "estou confuso". Não se diminuir com a insegurança, mas se aumentar com a insegurança. Não se retrair perante os pais. Não desmarcar um amor pela amizade. Não se esquecer de comentar pelo receio de ser incompreendido. Não se esquecer de repetir pela ânsia da claridade. Amar como se não houvesse tempo de amar. Amar esquisito, de lado, ainda amar. Amar atrasado, com a respiração antecipando o beijo. Amar com fúria, com o recalque de não ter sido assim antes. Amar decidido, obcecado, como quem troca de identidade e parte a um longo exílio. Amar como quem volta de um longo exílio. Amar com sofreguidão, não adiando o que é véspera. Amar não disfarçando as mãos, amar com os fantoches das mangas. Amar como uma canoa engatinha na margem, árvore deitada de bruços. Amar quase que por, por bebedeira, amar sem dizer por que ama. Amar desavisado, com vírgula entre o sujeito e o verbo. Amar desatinado, pressionando a amar mais, a amar mais do que é possível lembrar. Amar com coragem, só isso.
*
(Fabrício Carpinejar)

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Sobre nós dois...

 Quando estamos sozinhos, somos pela metade.
Quando somos dois, somos um.
Quando deixamos de ser um dos dois,
não somos nem a metade que começamos a história.
*
(Fabrício Carpinejar)

sábado, 13 de junho de 2009