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quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

(...)

Puro espírito do êxtase e do vento
Que no silêncio da planície danças
Eu não quero tocar teu corpo de água
Nem quero possuir-te nem cantar-te
Pesa-me já demais a minha mágoa
Sem que seja preciso procurar-te.

(Sophia de Mello B. Andresen)

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A hora da partida

A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.
Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.

(Sophia de M. B. Andresen)

terça-feira, 6 de abril de 2010

Livres habitamos...

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.

(Sophia de M. B. Andresen)

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Hora

Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta - por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.
Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.
E dormem mil gestos nos meus dedos.
Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.
Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.
E de novo caminho para o mar.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

sábado, 30 de janeiro de 2010

Esplendor

“Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos, 
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.”

(Sophia de M. B. Andresen)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

. . .

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos junto o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
*
Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
*
E abandonei os jardins do paraíso
Cá fora, à luz, sem véu, do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
*
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento.


(Sophia de Mello B. Andresen)

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Arte Poética

(...) “Pensava também que, se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos locais mágicos do jardim, eu conseguiria ouvir um desses poemas que o próprio ar continha em si.
No fundo, toda a minha a minha vida tentei escrever esse poema imanente. E aqueles momentos de silêncio no fundo do jardim ensinaram-me, muito tempo mais tarde, que não há poesia sem silêncio, sem que se tenha criado o vazio e a despersonalização.” (...)
*
(Sophia de Mello Breyner Andresen . Obra Poética "Ilhas")

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

“Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo”


Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa
*
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

quinta-feira, 4 de junho de 2009

 “Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
*
Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.”
*
(Sophia de Mello Breyner Andresen)