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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Só por preguiça

“Sou feliz só por preguiça.
A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença:
é preciso entrar e sair dela,
afastar os que nos querem consolar,
aceitar pêsames por uma porção de alma
que nem chegou a falecer.”
(Mia Couto)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Fui Sabendo de Mim

Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia
pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia
fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei
eu vi
a árvore morta
e soube que mentia

(Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas")

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Noturnamente

Noturnamente te construo
para que seja palavra do meu corpo
*
Peito que em mim respira
olhar em que me despojo
na rouquidão da tua carne
me inicio
me anuncio
e me denuncio
*
Sabes agora para o que venho
e por isso me desconheces.
*
(Mia Couto)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

. . .

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo
Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta
Sou pólen sem inseto
Sou areia susten - tando
o sexo das árvores
Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro
No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço
(Mia Couto)

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

POEMA DA DESPEDIDA

Não saberei nunca
dizer adeus
*
Afinal,
só os mortos sabem morrer
*

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser
*

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo
*

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos
*

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca
*

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo.
*
(Mia Couto)

domingo, 6 de setembro de 2009

...

Este é o meu conflito: quando estás, não existo, ignorada. Quando não estás, me desconheço, ignorante. Eu só sou na tua presença. E só me tenho na tua ausência. Agora, eu sei. Sou apenas um nome. Um nome que não se acende senão na tua boca. (…)
Esta noite cumpri o ritual: despi-me toda para ler as velhas cartas de Marcelo. O meu amor escrevia de modo tão profundo que, no decurso da leitura, eu sentia o braço dele roçando o meu corpo e era como se desabotoasse o vestido e as roupas desabassem a meus pés. (…)
Marcelo adormecia logo a seguir a fazer amor. Dobrava a almofada entre as pernas e tombava no sono. Eu ficava só, desperta, ruminando o tempo. No início via na atitude de Marcelo um sinal de insuportável egoísmo. Depois, já muito tarde, entendi. Os homens não olham as mulheres que acabaram de amar porque têm medo. Têm medo do que podem encontrar no fundo dos olhos delas.
*
(Jesusalém, Mia Couto)