domingo, 3 de agosto de 2008

Hoje, que seja esta ou aquela...
Pouco me importa.
Quero apenas parecer bela, pois, seja qual for, estou morta.
Já fui "ruiva",
já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz,
já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.
*
Que mal fez,
essa cor fingida do meu cabelo,
e do meu rosto se é tudo tinta:
o mundo, a vida, o contentamento, o desgosto?
*
Por fora, serei como queira a moda,
que vai me matando.
Que me levem pele e caveira ao nada,
não me importa quando.
Mas quem viu tão dilacerado,
olhos, braços e sonhos seus
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.
Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros se buscam no espelho.
*
(Cecília Meireles)

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