sexta-feira, 13 de novembro de 2009

“O fim da civilização”

O problema não é que terminou um século, o problema é que está a terminar uma civilização. O século é uma convenção, como o é o milênio, porque, para muitos seres humanos que se orientam por outros calendários, o milênio não tem o menos sentido. O que está bem claro é que chegamos ao fim de uma civilização. Somos os últimos representantes de um modo de viver, de entender o mundo, de entender as relações humanas, que chegou ao fim. Tudo está a mudar, a família, as instituições, tudo está a se transformar em outra coisa. Mas, digo-lhe com toda a honestidade do mundo, não sei em quê. Estou convencido de que, no final do século XIX, se se perguntasse a cientistas e intelectuais o que pensavam sobre o século XX, todos se teriam equivocado. Vivemos num momento de mudanças, de transformações científicas e tecnológicas de toda a ordem, em que se fala de clones. A genética chegou a um ponto que não poderíamos imaginar, como podemos dizer agora como será o novo milênio? Nem sequer podemos arriscar previsões sobre o que vai acontecer nos próximos cinquenta anos. Não tenho a menor ideia de como será. Se quiser olhar todas essas coisas pelo pior lado, direi que não gosto delas. Hoje, numa carta que escrevi à minha tradutora japonesa, digo que não gostaria de viver no século XXI. Tenho consciência de que não pertenço a esse tempo, somos as últimas engrenagens de uma civilização que se vai (...).

(José Saramago)

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