“Era ali a terra, antes que ela fosse enxovalhada pelo pecado original; seus habitantes, não conhecendo o mal, viviam no mesmo paraíso em que, conforme as tradições da humanidade inteira viveram nossos culpados ancestrais, com a diferença de que a terra ali era em todas as partes um único e mesmo paraíso. Esses homens de sorriso alegre se apertavam contra mim, pródigos de carícias. Levaram-me com eles, e todos teriam querido me propiciar a tranquilidade.”
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“O amor desses seres inocentes e esplêndidos deixou em mim uma impressão perdurável e sinto que ela ainda flui das profundezas da minha alma.”
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“Não tinham desejos, e na sua serenidade não aspiravam, como a nós, a conhecer a vida, pois tinham atingido o estado de perfeição.”
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“Seus filhos eram filhos de todos, porque constituíam uma só família.”
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(…)
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“Sim, sim, acabei corrompendo a todos!… Sei somente que fui eu a causa do primeiro pecado. Tal como uma moléstia infecciosa, um átomo de peste, suscetível de contaminar todo um império, assim contaminei, com minha presença, uma terra de delícias, inocente até a minha chegada. Aprenderam a mentir e deleitaram-se com a mentira, e aprenderam a beleza da mentira… E m pouco tempo nasceu a volúpia; a volúpia engendrou o ciúme; o ciúme, a crueldade… Ah! não sei, não me lembro, porém logo, muito depressa, o sangue esguichou, no primeiro jorro: eles ficaram espantados, horrorizados, começaram a se distanciar um dos outros, a se separar.”
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“Tornados criminosos, então foi que inventaram a justiça e ditaram códigos completos para conservá-la; depois a fim de assegurar o respeito aos códigos, instituíram a guilhotina… Os fracos se submeteram voluntariamente aos mais fortes, contanto que estes os ajudassem a esmagar os que eram ainda mais fracos.”
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(…)
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“De repente, enquanto me punha de pé e voltava a mim, o revólver carregado e preparado para detonar feriu minha vista – mas depressa o empurrei para longe de mim. Ah! viver, no momento, viver! Levantei os braços invocando a eterna Verdade;”
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“Porque eu vi a Verdade, eu a vi, e sei que os homens podem ser belos e felizes, sem perder a faculdade de viver sobre a terra. Não quero nem posso crer que o mal seja a única condição normal dos homens. E, entretanto é unicamente dessa crença que caçoam de mim.”
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“Apesar de tudo pregarei o paraíso. Entretanto, como é simples, poder-se-ia conseguir que num só dia, em uma só hora, tudo fosse reedificado. O essencial é amar o próximo como a si mesmo, eis o que é essencial, eis o que é tudo, sem que haja necessidade de outra coisa: logo saberemos como edificar o paraíso.”
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(trechos extraídos do livro “Os melhores contos de Dostoievski”)
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